A minha carreira começou agora!

É conhecido como Marinho Cowboy, voz dos projectos Falecido Alves dos Reis e Alucina Eugénio que deram o seu contributo para a música portuguesa dos anos 80 e 90, respectivamente. Mário Ferreira esteve emigrado em Espanha durante 17 anos, apresentando agora dois projectos distintos : Mad Joint e Boémia Vádia . Recorde o percurso deste cowboy português , que nunca deixou de sentir e expressar a sua grande paixão: a música.

Texto Irene Mónica Leite

Mário Ferreira iniciou a sua carreira musical a meio da década de 80 com o projecto Falecido Alces dos Reis, em que era vocalista. Do grupo faziam parte Quim Coutinho (Kim C), Eduardo “Búfalo” Correia e  José Pedro Guimarães. A estreia deu-se em 1988 no Pub Luís Armastrondo no Porto. Participam também no Concurso de Música Moderna Portuguesa do Rock Rendez Vous desse ano sendo que aparecem na compilação “Registos” com o tema “À Noite”.

Dados os bons conhecimentos de que dispunham junto dos promotores dos espectáculos, fizeram as primeiras partes dos concertos dados na Invicta por The Mission, Baalam & The Angels e Peter Murphy. Depois mudariam de nome para Alucina Eugénio, uma verdadeira aventura.

Os Alucina Eugénio , de 93, eram Mário Ferreira (voz, baixo, bateria) e Kim Coutinho (guitarra, teclas, percussão e voz). No entanto,  eram também e em colaboração, Fernando Cunha (guitarra e voz), Zé Borges (bateria e voz), Júlio César (baixo), Alex Fernandes (sampling, teclas, voz e percussão), Victor Moura (guitarra em “Touch’n Go”), Miguel Guia (percussão em “Touch’n Go”), Margarida Nilo (voz em “Piece of Cake” e “Viscious” e Nelson Mandela MC (rapper). Uma verdadeira família.

“Mushrooms EP 93″ é uma registo descontraído. Há pop, rock, até uns toques de rap, no fundo, vale um pouco de tudo rumo à boa disposição, como avança o site a Trompa. “Moderna festarola pop”.

1 – Como e quando surgiu a paixão pela música? Houve influência de algum familiar /amigo em concreto?
A paixão pela música surgiu de pequeno, quando ouvia a minha avó a cantar o fado, e tinha autorização do meu pai para investigar a sua coleção de singles.

2-Como e quando surgiu o projeto Falecido Alves dos Reis? Porquê esse nome?
No ano de 1986, eu trabalhei no Tour Circo de Feras, dos Xutos e Pontapés, e fui com eles, na qualidade de road-manager, fazer um concerto no extinto pavilhão Infante Sagres. O grupo que fazia a primeira parte eram os X-Position, (já a dar as ultimas), e conheci o Kim Coutinho, (era o guitarrista), com quem fiquei no Porto umas semanas, depois do concerto. Ele já andava a ensaiar o projecto Alves dos Reis, com o Tó-Zé Ferreira e o Pedro Guimarães, e convidaram-me para cantar. Foi a minha primeira vez! O nome veio umas semanas depois, quando o Eduardo “Bufalo”, se juntou a nós. Nessa época ele lia “O homem de Lisboa”, um excelente livro que retratava com grande exactitude, a execução de um plano que viria ser a maior burla jamais cometido contra o Banco de Portugal. Era um simplório, com recursos de intelectual. Decidimos dedicar-lhe o nome do grupo.

3-Que influências tinham na altura?
-As novas sonoridades que chegavam do Reino Unido, principalmente, cinzentos, urbano-depressivos de finais dos oitenta. The Cure, The Cult, The Smiths, Joy Division…

4-Nos anos 90 ocorreu outra grande aventura: os Alucina Eugénio. Porquê o corte com o projeto anterior?
Os Falecido tiveram uma vida curta mas muito intensa, até que chegou um dia, ( a finais de 89), eu senti que já não era aquilo que queria fazer. Comecei a trabalhar com a Bimotor no Porto, e a ter acesso directo às ultimas novidades entre o indie e o alternativo. Rapidamente me apaixonei de novos sons que vinham da América, com Jane´s Adiction, Red Hot Chilli Pepers, Soundgarden, Pearl Jam, ou mesmo os Nirvana. Era o principio dos anos 90 e comecei a ensaiar o projecto Alucina Eugénio, com clientes da Bimotor, que também eram músicos, de diferentes estilos. Propus ao Kim Coutinho acompanhar-me nessa nova aventura, que aceitou e assinou todas as composições a meias comigo. Ainda hoje tocamos juntos e já se falou mais que seriamente na possibilidade de reactivar os Alucina Eugénio.

5-Nos anos 90 o Mário também trabalhou nas noites do Meia Cave. Como recorda essa experiência como dj?
Comecei a trabalhar como dj no Porto, para me fazer à vida, já que queria ficar (residi no Porto 10 anos), a tocar, mas não chegava para viver. Fui primeiro dj do Loco Moskito, do Griffon´s, com o Tó-Zé, passei por uma serie de casas, antes de chegar ao Meia-Cave, onde permaneci durante 6 bons e longos anos. Sou um privilegiado por poder ter assistido aquele movimento que se criou ao redor do culto à Ribeira que houve naqueles anos. Estive de 87 a 93, e foi como um laboratório de pesquiza, de investigação musical.

6-Segue-se depois uma grande viragem na sua vida: vai para Espanha durante 17 anos. E nasceram, entretanto, três novos projetos: Mad Joint , Fado Blues e Boémia Vádia. Como é que surgiram estes projetos?
O que se passou, foi que nenhum de nós (eu e o Kim), estávamos preparados para o relativo êxito que teve o EP “Mushrooms” dos Alucina Eugénio, e não soubemos manejar a situação com coerência . Não havia internet, não tivemos assessoria de uma grande editora e a coisa foi-se perdendo, até que eu tive uma proposta de trabalho (que nada tinha a ver com a musica), para Espanha, e lá me vi eu a caminho de Madrid, onde fiquei dois meses, partindo depois para Valência onde efectivamente, estive 17 anos, 12 dos quais, praticamente afastado da música, na parte prática. Fui pai e marido, limitei-me a trabalhar e a ouvir o que podia. Nunca deixei de escrever, assim que um dia, fui viver para um pequeno paraíso à beira mar plantado chamado Las Rotas (a 90 klms ao sul de Valência), e comecei a cantar tudo o que tinha escrito. Comprei uma guitarra acústica usada e fui dando forma a canções. Um dia de Outubro do ano 1997, telefonei ao Kim, (estivemos 12 anos sem noticias um do outro), e convidei-o a ir passar uns dias comigo, e que trouxesse instrumentos. Ele assim o fez, gravamos uma primeira maquete, formamos um projecto ao que chamámos maRKimia, que não foi mais que, (sem intenção), o reactivar do processo de reciclagem dos Alucina Eugénio. Todos os temas que fizemos entre 2008 e 2010, são parte do novo repertório que esperam os novos Alucineugénio para levar para a estrada. Com a chegada da crise e com ela cada vez mais difícil a possibilidade de estarmos juntos, (Kim seguia vivendo no Porto, e eu em Valência), acabei por dar corpo a uma ideia já antiga que tinha na mente, que era tentar fundir o fado, com outros estilos. Tive a sorte e o prazer de conhecer alguns músicos em Valência que me ajudaram a criar os Fado Blues, com quem gravei um cd, “Taberna flotante”, que foi editado em Espanha. Um projecto de autor, (as composições e letras são minhas), que acabou por ser efémero pelo factor de que os músicos tinham os seus próprios projectos e grupos em expansão. Em Janeiro de 2012, os Fado Blues pediram férias por tempo indeterminado, e eu segui a trabalhar e a avançar com a ideia. Como fiquei sem músicos, incorporei a Rebecca Amar nas vozes, (cantora parisiense de cabaret que aporta os ambientes dignos de Montmartre e que quadra muito bem com o meu canto e as minhas palavras do fado), e voltei a chamar o Kim. Completei o processo com bases electrónicas, e assim nasceram Boémia Vádia.
Em Valência gravámos 3 demos, e em Agosto de 2013, decidimos assentar arraiais e “armas” na Costa da Caparica, onde residimos actualmente.
MaDJoint, é produto das facilidades que nos dá a internet. Ao ter uma quantidade enorme de temas que não sabia que fazer, decidi criar essa ideia, como dj de autor, onde me dediquei durante o tempo de adaptação da família à nova cidade, a fazer reciclagens e novas versões de canções que foram muito famosas no nacional cançonetismo da minha infância e juventude, misturados com alguns originais. Suponho que é um projecto sem grande futuro, mas rico em experiência e para sumar ao curriculum.

7- Que balanço estabelece em relação à sua carreira?
Que até agora, foi uma enorme fase de aprendizagem. A minha carreira começou agora!

8-Planos futuros.
Os planos futuros consistem em apresentar a Boémia Vádia ao vivo em Portugal e gravar este ano o nosso primeiro disco. Na verdade, cada vez menos me apetece gravar discos. Suponho que a formula ideal é a de fazer canções e publicar na net, mas vamos a precisar de ter um “cartão de visita” material e de qualidade. Para os concertos que já temos marcados para Abril e Maio em Lisboa, estamos em fase de reunião de músicos e os contactos têm sido muito positivos…pode ser que tenha umas boas surpresas para a Primavera. Os concertos de Boémia Vádia oscilarão entre a electrónica e o acústico, já que recuperaremos alguns dos temas do cd “Taberna flotante” dos Fado Blues, mas serei fiel à sua estrutura original. O curioso será que, no Porto, voltaremos a estar juntos no mesmo palco, 24 anos depois, a 3 dos Falecido Alves dos Reis, já que o Eduardo “Bufalo”, é a nova adquisição para as guitarras de Boémia Vádia …e sigo com esperança de algum dia poder viver das canções!!

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