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Sábado, dia 8 de Agosto, foi diferente para o Som à Letra. Tivemos uma agradável conversa com a banda brasileira Cores Raras. Os dois irmãos (António e Ana de Luna) contextualizaram este delicioso projeto e o resultado está à vista. O encanto com Portugal é notório. E nós esperamos que seja apenas a primeira visita desta banda por terras lusas. Confira a entrevista.


Texto/Irene Mónica Leite
Fotos/Cátia Cruz

Como e quando tudo começou?
Ana de Luna: A banda começou em 2007.Chamava-se originalmente Turrón Presidencial. Era composta pelo António de Luna, o Marcos Rangel e outro rapaz que acabou por sair do projeto e faz cinema hoje em dia. A banda resumia-se a voz e violão, essencialmente. Depois entrou o João Paulo na bateria. Tivemos diversos baixistas ao longo do tempo. O primeiro foi o Dido Mariano que está aqui connosco hoje. Com essa formação, apenas de voz e violão, ganhámos alguns festivais, sendo o maior deles o FINCA, que é um festival universitário de Brasília. Também atuamos no 51º aniversário da cidade. Mas a banda foi mudando de formação, chegando até à atual, desde 2012.

2_cores-rarasReferiram a presença em festivais e espetáculos locais. Como é recordada essa experiência?
António de Luna: A experiência consagradora mesmo foi o festival FINCA. Há uma expressão que se utiliza no Brasil que é “Zebra”. Nós éramos a “zebra” do festival. (risos). Tinha tudo para dar errado. Eram só bandas grandes com trompete , baixo e bateria e nós éramos dois violões e duas vozes. E nós fomos lá com a energia e honestidade, agitando o povo inteiro e ganhando o festival. E esse momento consagrador provou para nós que era possível dedicar-se à música se houvesse comprometimento, paixão, dedicação e objetivos claros. E nós fomos atingindo os objetivos. É óbvio que há experiências menos positivas. Mas os anos de formação foram fundamentais para a banda atingir a maturidade atual, em termos de som e comportamento dentro da banda.

As experiências que eu guardo dessa fase são predominantemente positivas. E são experiências que na realidade nutro muito carinho. São os nossos anos de formação.

A vossa base…
António de Luna: Exatamente.

1_cores-rarasFoi longo o processo de chegarem a estúdio?
António de Luna: Não. Na verdade, quando ganhámos esse festival, já estávamos com a banda há mais ou menos dois anos . Nós participamos nesse festival a primeira vez em 2007, chegamos à final, mas não ganhámos. Participamos de novo em 2009, éramos um dueto, e aí ganhámos. E aí falámos: temos que ir direto para estúdio. A estrutura de dois violões consegue pouco espaço em Brasília, que é dominado por bandas que não tocam música autoral. E as bandas de música autoral já têm dificuldade, imagina um dueto autoral. É mais difícil ainda. Então o que decidimos, foi entrar no estúdio diretamente.
Começamos a gravar como se fossem só dois violões , mas nessa altura já tínhamos tocado com o Dido Mariano e o João Paulo. Quando chegamos a estúdio percebemos que só gravar dois violões não seria suficiente. Chamamos então o Dido Mariano , outro baterista, porque o João não estava naquela altura e gravamos a base do nosso som atual. Não tinha piano, não tinha voz feminina.Eu era o cantor. Foi ali que vimos todo o processo a concretizar-se. O Marcos falava que “quando o cd for lançado, vai abrir portas”. E o facto é que em todas as vezes que gravamos , muitas oportunidades surgem, entre elas tocar no Porto e em Lisboa.

E em termos de influências… Podem citar algumas?
António de Luna: Essa é a parte mais complicada de responder. Porque nós não escolhemos um género em particular . Não pensamos em “eu tenho de ser um rockeiro”, por exemplo. O blues, o rock, a música clássica, são apenas instrumentos. Na verdade são recursos. Não são totalidades. Algo como combinar secção rítmica do samba com música indiana. Se for coerente, funciona.Nós tentamos sempre traçar um caminho coerente.

4Eu por exemplo aprecio Beatles, Led Zeppelin, para citar alguns do rock. Adoro blues antigo, dos anos 20. Gosto muito de ouvir jazz. Adoro música clássica. O Dido Mariano é um exímio baixista de jazz. Tem uma escola do funk muito forte. O João Paulo vem de uma escola de um rock mais progressivo. A Ana gosta de cantoras negras como Nina Simone. O Marcos tem as influências que eu acho mais curiosas. Porque ele vem do hardcore. Ele tinha uma banda de hardcore que , aliás, fez muito sucesso no Brasil. É formado em violão erudito, mas é o guitarrista elétrico da banda.

Assim, decidimos que, no lugar de escolher um género, vamos compondo e deixamos que essas influências se acomodem naturalmente. E aí vamos criando as pequenas ligações.

6_cores-rarasÉ por isso mesmo que vocês falam em paleta de cores e tons para descrever o vosso som…
António de Luna: É como se fosse um quadro impressionista. Quando se vê de longe é uma composição total. Mas de perto nota-se as várias pinceladas de tipos diferentes.

O mesmo método que vocês utilizam no vosso trabalho relativamente aos géneros musicais…
António de Luna: Exatamente. Nós damos várias pinceladas de blues, de jazz de rock e quando se vê de longe está uma paisagem.
Ana de Luna: Também utilizamos muito influências da psicodelia, do tropicalismo brasileiro. MPB em geral, samba , baião, que é um ritmo regional, do nordeste do país. Para citar algumas bandas, ou músicos brasileiros: Mutantes, Gilberto Gil, Secos & Molhados… De brasileiros, são muitos artistas. E os internacionais, são talvez os nomes mais consagrados.

E nos vossos espetáculos também fazem covers dessas vossas influências.
Ana de Luna: Exatamente. Não chegou a ser covers. Mas são versões. Nós pegamos na música e criamos algo nosso para aquele som em especifico, sem perder a estrutura da canção. Por vezes utilizamos trechos.
António de Luna: Na verdade, tudo o que envolver paletas de cores. receitas de cozinha…está mais ou menos relacionado com o nosso trabalho (risos).

E como se desenvolve o processo de composição das letras?
António de Luna: Na verdade não sei como é que componho.

É intuitivo
António de Luna: Sim. Sei geralmente o que quero procurar. Por exemplo…”ouvi um David Bowie e quero tirar um som a lembrar o daquela música em específico”. Depois eu vou mostrando as minhas ideias aos restantes músicos e tudo vai nascendo.
Ana de Luna: Cada um traz as suas influências para o processo criativo. O António é que compõe as letras e a linha melódica.
António de Luna: Nós trabalhamos muito com harmonia vocal. Existem muitas dimensões por onde se pode explorar uma determinada canção. Nós trabalhamos o género , o ritmo e a melodia como um recurso. A exploração de cada um desses recursos é necessária. Tem que se testar tudo.

E relativamente a esta passagem por Portugal, como surgiu a oportunidade?
Ana de Luna: Foi simples. Abrimos um dia o nosso email , e tinha lá escrito, mini digressão por Portugal! Embarcámos na hora. É uma experiência maravilhosa. Ontem o concerto foi sensacional [Mercedes Bar]. O público é diferente do brasileiro…o português absorve mais a música.
António de Luna: Recebemos feedbacks muito precisos, que geralmente não recebemos no Brasil. As pessoas aqui apresentam uma cultura musical bastante fundamentada. É ótimo receber esse feedback. Crescimento só se faz com diálogo.

Portugal está aprovadíssimo, portanto.
Ana de Luna: Está mais que aprovado. Para nós [Ana e António] que morámos aqui [Lisboa] e para os restantes membros que estão aqui pela primeira vez que são o João, o Dido e o Marcos.

E relativamente ao vosso cd, que data de 2014 [Pássaros podem ou não voar em grupos], como decorreu o processo de gravação?
Ana de Luna: Nós já tínhamos várias musicas compostas. A gravação do cd durou cerca de 8 meses. Enquanto estávamos a gravar o cd , surgiram novas composições , que já entraram como por exemplo, “a gatuna”.

Durante a gravação fomos criando mais material. Foi uma experiência maravilhosa. No meu caso foi a minha primeira experiência em estúdio. Desde que lançamos o registo só aconteceram coisas boas. O nosso primeiro semestre em Brasília …chegou a ser três concertos por semana.

O que podemos esperar dos próximos concertos?
Ana de Luna. Muita animação.Um som de primeira qualidade. Esperamos que a aceitação do público continue a ser positiva.

E para remate, planos futuros.
Ana de Luna: Depois desta mini digressão o nosso foco é voltar para Brasília. Fazer um concerto lá e gravar o cd. Vamos encerrar para shows por um tempo e gravar o segundo cd. Esperar coisas maiores, como tocar para fora, ou em grandes festivais do Brasil.O segundo cd já tem 6 músicas compostas.
António de Luna: Na verdade não é fechar para shows, mas ser mais selectivo. Foram muitos concertos no primeiro semestre e isso prejudicou um pouco o processo de composição.O segundo cd terá entre 10 a 12 músicas.

Próximos concertos:
Dia 14 de agosto, B.Leza (Lisboa), às 22h00;
Dia 15 de agosto, Bar A Barraca (Lisboa), às 22h00.

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