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A redação da Scratch Magazine recebeu na passada sexta-feira, 01 de fevereiro, Noa. Com a sua simpatia e boa disposição conquistou toda a equipa e falou-nos de todo o seu percurso, passando pelo álbum ‘Cicatriz’. Veja o resultado.


Texto/Irene Mónica Leite  e Vítor Costa
Fotos/Ricardo Costa

 

Como e quando nasceu a paixão pela música? Houve influência de alguém em particular?
Acho que começou com o meu avô , a tocar bandolim. Há medida que fui crescendo , os meus pais sempre me incentivaram imenso. Lembro-me de quando era pequenina , ir ao Shopping Brasilia, quando havia o cheirinho dos Croissants de chocolate (risos), com as famosas escadas rolantes. Havia lá uma loja de música de jazz onde íamos comprar cd´s. Aquele gesto de tocar , explorar os cd´s , foi lá que aprendi. O meu pai comprava  e eu fui seguindo as pisadas. Devido a uma situação com as minhas pernas , precisei de ir para o ballet, muito cedo. Usei ferrinhos nas pernas, foi um problema de ossos. A escola onde era o ballet também apresentava formação de instrumentos e acabei por entrar no violino. Foi algo em catadupa.

Pois eu ia-lhe perguntar como surgiu a relação com o violino , o seu instrumento âncora … de uma forma natural, portanto….
Foi. Não era para ir para o violino. O que eu queria mesmo era a harpa. Mas nós tínhamos uma casa pequenina ….ou era o sofá ou a harpa (risos). E acabei por ir para o violino.

Tem formação na área da literatura. Isso também ajudou na vertente de composição das letras?
Ajudou. Comecei a escrever poesia muito cedo. E fui filha única durante muitos anos. Até aos 16, 17 anos. O que é que acontecia? Ficava muito tempo sozinha. A RTP 2 com os bailados à noite. Eram livros que havia nas estantes e que eu ia lendo sem perceber muito bem o que estava a ler, pois lia muita coisa fora de tempo, como Eça de Queirós aos 12. Lia e gostava mas não percebia toda a mensagem. Aquilo deu-me para escrever poesia. Muita poesia solta. O meu pai até dizia que eu escrevia muita poesia a metro. E depois no 12º , acabei por fazer latim. E acabei por seguir literatura portuguesa, a conhecer os autores, as correntes. Mas principalmente o facto de me obrigar a ler. Porque a faculdade obriga-nos quase a devorar livros. E uma coisa leva à outra. Eu já gostava, só veio a solidificar a paixão.

A Taberna do Cais das Pedras é também um local muito especial. Até mesmo para influências, ideias….
A Taberna do Cais das Pedras é o segundo restaurante da minha mãe. Primeiro foi o Barqueiro. Às quartas feiras eu atuava.

E começou a criar-se uma rotina com o público.
Precisamente, uma rotina. Passado cinco anos, a minha mãe foi para outro sitio, para onde é agora o Cais das Pedras. Mantivemos as quartas -feiras . Há sempre as quartas-feiras de fado. Temos, por exemplo, clientes que nem sabem de nada , e que vão lá ter, gostam de cantar e sobem ao palco. Já tivemos por lá , por coincidência, o vencedor do The Voice japonês. Conclusão: ninguém percebeu nada do que cantou (risos).

1Sinal que é aberto a diferentes culturas.
Costumo dizer que é um bom sitio para experimentar. Porque há sempre uma rede, que é o facto de estarmos todos juntos ali. Ninguém está a julgar ninguém . Se correr mal, está tudo bem. Quantas vezes esquecemo-nos da letra…e as pessoas ajudam.

Ajuda a criar as próprias letras , a improvisar…E ajuda a inspirar para o próximo trabalho.
Aliás o “Cicatriz”, o primeiro tema do concerto foi feito numa noite dessas. Os clientes depois foram-se embora, ficaram os músicos. Fui ter com o guitarrista , que faz um acorde eu começo a trabalhar na melodia , e assim vai nascendo a música.
Peguei no telemóvel, gravei e depois liguei ao meu produtor. E é assim que vai nascendo.

As letras são, portanto, pessoais?
São. Não consigo escrever de outra maneira.

Como artista é Noa. Quem é a Noa?
Há muitas Lias dentro da Lia. Quando estou como Noa estou justificada para tudo o que decidi fazer enquanto artista. Como Lia não posso fazer isso. Na altura dava aulas a miúdos.

E sentiu a necessidade de separar os lados…
Sim.

Em termos de estilos musicais, é um ecletismo vibrante que a caracteriza. Segmentar, nunca?
Não acredito em purismos. Não acho que seja uma forma de manter o que quer que seja. Acredito na miscelânea, na fusão. De facto, eu ouvia muita coisa. Estar sempre no mesmo registo é muito castrador, Para quem gosta de criar e fazer coisas …

Nada é estanque…
Exatamente. Também não acredito em música erudita.

Que balanço estabelece do seu percurso até ao momento?
Ele não está parado.

Passando para o registo “Cicatriz” referiu que a dor é uma forma de aprendizagem. Em que sentido?
No pior (risos). A dor causa cicatrizes, que criam situações de alarme. Quando estamos numa situação já vivida antes, o nosso botão vai accionar e vai dizer :”atenção”, “situação complicada”. A não ser que se goste de viver na dor. Também acontece.

Que desafios trouxe este disco?
O facto de fazer uma ruptura com o anterior, que veio também numa situação de profunda dor. Um ex namorado… aquelas relações muito tóxicas. Estava triste a chorar e com uma caneta comecei a escrever poesia de trás para a frente. O meu pai , ao lado, pega na guitarra e começa com a melodia. Acabou por me distrair do poço onde estava. Depois comecei a ouvir , a sugerir…

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Sendo também uma forma de exorcizar os sentimentos…
Sem dúvida. Porque depois vem o outro lado. O ex: “porque tu foste dizer isto numa música”…(risos) Foi fechar o dossier.

E quando é que começou a ser pensado o álbum Cicatriz?
A verdade é que isto é tudo muito continuo. Foi uma forma de armazenar um conjunto de músicas que e já tinha. Decidi fazer uma homenagem a música clássica portuguesa e brasileira, porque estive no ano passado um mês na Bahia. Eles são muito bons. Conheci a Margaret Menezes, por exemplo.

Há algum tema neste álbum que lhe seja mais especial?
Todos eles são especiais, é como aquela situação: qual o filho favorito? Não consigo….O “Cicatriz” foi feito em duas fases, A primeira fase estava relacionada com uma relação antiga, que passado dez anos retomamos.  Algo muito drama-queen (risos). Um amor muito grande, casamento em Nova Iorque… Mas na conclusão, nada, zero. A parte boa é que dá para fazer músicas (risos).
“A segunda vida das coisas” com o André Sarbib, foi muito engraçado. O “Belzebu” foi o meu pai.

Como nasceu a ideia de trazer este lado inclusivo para os concertos?
Sempre dei aulas.Acho mais piada dar aulas a alunos mais difíceis, do que a públicos privilegiados. Dei aulas na APPACDM, por exemplo. Esse desafio levou-me a redimensionar tudo. Não é um processo fácil, mas por cada vitória era uma celebração recuperada nestes concertos.

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