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Estávamos em 1969. Tempos que não eram fáceis para o jornalismo musical. Mas , ainda assim, havia corajosos que alinhavam em aventuras nos tempos da censura. Avelino Tavares foi um desses aventureiros. E ainda bem, pois nasceu uma “canção diferente”. A revista Mundo da Canção. Hoje no baú das memórias do Som à Letra. Confira.

Por Irene Mónica Leite 

1-Como e quando surgiu a ideia de publicação da revista Mundo da Canção?

O Mundo da Canção foi, em larga medida, a concretização de um desejo pessoal, mas só foi possível graças a um conjunto de vontades, de gente que queria tirar partido das circunstâncias que então se viviam para criar algo de novo. Estávamos em 1969, em plena “primavera marcelista”, e o regime aparentava estar disposto a alguma abertura, que se veio a revelar muito tímida. Mas foi um ano marcado por uma sucessão de acontecimentos muito motivadores e de grande importância social, política e cultural, como o congresso da Oposição Democrática, em Aveiro. Não podemos esquecer que esse foi o ano da maior crise estudantil do Estado Novo, que culminou nos acontecimentos que marcaram o final da Taça de Portugal de futebol, entre a Académica de Coimbra e o Benfica, transformada numa enorme manifestação de protesto de estudantes e não estudantes pelo fim da repressão. Além disso, havia a noção clara de que o mundo, também ele, estava a mudar: o Maio de 68, em França, e o Festival de Woodstock, realizado em Agosto de 69, foram acontecimentos determinantes para essa nova consciência colectiva que ultrapassava fronteiras e nos fazia acreditar que havia razões para ter esperança. Por cá, 1969 foi também o ano do “Zip-Zip”, um programa de televisão que contribuiu decisivamente para a consolidação do movimento que se tinha gerado a partir de José Afonso e de Adriano Correia de Oliveira e que já tinha uma expressão considerável, quer em Portugal, onde se destacava, por exemplo, o Manuel Freire, quer no exílio, nomeadamente em França, onde o Luís Cília e o José Mário Branco trilhavam os seus caminhos, claramente traçados e assumidamente alternativos. E foi assim que, no último mês desse ano de 1969, saiu o primeiro número do MC, naturalmente alinhado com esse movimento. Não por acaso, na capa do número de estreia vinha o então padre Francisco Fanhais, que tinha surgido e começado a gravar justamente com o “Zip Zip”. Era, também, uma forma de a revista se posicionar face ao universo a que dizia respeito.

2-Lutar por uma massa crítica em pleno Estado Novo é obra. Que princípios orientavam a vossa acção no início da década de 70?

O MC estava claramente do lado da “música nova” (ou “nova canção”, como então por vezes era designada) que se fazia em Portugal e no mundo. Seguíamos um modelo relativamente simples, que se baseava na divulgação dos textos de canções (que nessa altura raramente vinham nos discos) que, nuns casos, estavam “na moda”, noutros casos nem tanto. Algumas eram letras perfeitamente inócuas, outras bem pelo contrário. No meio de tudo isto, a “mensagem” ia passando…

3-Como correu a experiência em Vilar de Mouros? Foi, de facto, um novo paradigma?

Vilar de Mouros foi uma coisa completamente nova relativamente aos hábitos do Portugal de então. Surgiu na esteira do Festival de Woodstock e foi importante sobretudo por ter sido um inaudito espaço de alguma liberdade num país que era tudo menos livre. Mais do que o festival em si, que teve muitas falhas e uma dose considerável de improviso (e não podia ter sido de outra maneira, já que era algo que, por cá, nunca tinha sido feito), o importante foi sobretudo o contributo que terá dado para a criação de uma nova mentalidade e para que a música e a actividade musical evoluíssem no sentido da consciencialização colectiva. E o MC, como não podia deixar de ser, estava lá, na primeira linha, não apenas fazendo a cobertura do evento, com o jornalista Jorge Cordeiro, como também colaborando na própria organização do festival, com a Casa Ruvina, empresa do Porto que foi responsável pelo som.

4-Fazer jornalismo musical fresco e inovador não era tarefa fácil. Alguma história em particular a partilhar com o Som à Letra?

Nós procurámos sempre que possível ir para lá das próprias páginas da revista e participar de modo activo no próprio movimento. Foi assim que tentámos fazer os “encontros MC”, na Galeria Alvarez, e ainda conseguimos fazer dois – com o Manuel Freire e o Vieira da Silva – razoavelmente vigiados pela PIDE. O MC vivia muito da irreverência e do inconformismo de quem o fazia, o que às vezes obrigava a alguma “ginástica” intelectual, para “fintar” aqueles que estavam sempre atentos a tudo o que pudesse pôr em causa a ordem estabelecida. E era um espaço aberto a todos os que partilhassem dos mesmo valores, o que nos permitiu ter a colaboração cúmplice de grandes nomes do jornalismo e da cultura do nosso país, como, por exemplo, o José Viale Moutinho, que foi dos primeiros directores, ou a Maria Teresa Horta, a primeira delegada em Lisboa, que já na altura era uma voz importante da poesia portuguesa.

5-O vosso enfoque era a música portuguesa, mas havia espaço para outras sonoridades. Que géneros abraçavam principalmente?

O MC dava atenção às correntes alternativas, mas também não ignorava o resto. As novas tendências do rock e da pop faziam parte do nosso universo e dos interesses da equipa que fazia a revista, e isso reflectia-se na matéria publicada. Assim, tanto podíamos abordar trabalhos dos Pink Floyd ou dos Genesis, como os de Brassens ou Léo Ferre, como ainda os de Demis Roussos ou de Sylvie Vartan. Ou seja: não falávamos apenas da “canção de protesto”, ao contrário do que possa pensar-se. Éramos até razoavelmente abrangentes e plurais. O que, de resto, era também uma forma de “fintar” os instrumentos de repressão do regime.

6- Em 1973 tiveram uma edição integralmente apreendida pela PIDE. Que repercussões teve no vosso posterior trabalho?

Essa apreensão complicou-nos muito a vida, sim. De tal maneira que nunca chegámos a recuperar totalmente. Para além do prejuízo, esmagador para uma publicação desta dimensão, foi um acto intimidatório que, inevitavelmente, teve reflexos duradouros na revista. Até essa altura, nas primeiras 33 edições, o MC não se submetia à censura. O número 34 foi apreendido na gráfica e os números seguintes, até ao 25 de Abril, passaram a ter de recorrer mais a uma linguagem cifrada, com segundos sentidos, que era a única maneira de procurar tornear a censura a que a revista passou a ser sujeita. A própria escolha dos assuntos a tratar ficou bastante condicionada por isso. E a revista passou a ter uma saída mais irregular, devido sobretudo aos cortes nos textos, que muitas vezes obrigavam a refazer tudo o que já estava feito. Ora, se isso era complicado para os jornais e revistas de grande dimensão, mais ainda o era para uma publicação como o MC, mantida por uma equipa amadora e não remunerada, como era a nossa.

7-A publicação foi evoluindo com o tempo. Como é que se processa a vossa actividade na actualidade?

Actualmente, o MC desenvolve a sua actividade na área da organização e produção de espectáculos.

8-A internet, com o seu largo espectro de alcance, tem permitido o desenvolvimento de um conjunto de publicações musicais online (como o Som à Letra, a Punch Magazine ou o Ponto Alternativo). Há a possibilidade do Mundo da Canção apostar a 100% na internet?

Se já existem publicações musicais online, pensamos não ser necessário apostar na internet.

9-Continuando o raciocínio da questão anterior, dada a multiplicidade de canais, revistas, sites, blogs temáticos, e formas de ouvir e ver música pelas novas gerações, consideram necessário mudar algo na vossa linguagem?

Não. Se outros desempenham bem o seu trabalho, não é necessário o MC entrar nessas áreas.

10-Qual é a vossa opinião acerca do jornalismo musical que se faz actualmente em Portugal?

O “jornalismo musical”, como lhe chama, tem sido sempre o parente pobre do chamado “jornalismo cultural”. Ainda há muita gente, mesmo entre os jornalistas, para quem a cultura se divide numa parte “séria” – onde estão a literatura, a pintura, a música clássica – e outra “a brincar” – onde entram o cinema, o teatro, a música dita ligeira. Isto é um problema que vem de longe, mas que se agravou com a crescente mercantilização da própria imprensa. Os jornais deixaram de falar da rádio, por exemplo, mas em contrapartida dão cada vez mais espaço à televisão. Que, por sua vez, tem vindo a baixar de nível em movimento uniformemente acelerado: ainda não há muitos anos, era possível assistir a programas de poesia do Mário Viegas no horário nobre a RTP, uma coisa que hoje é inimaginável. Ora, esta nivelação por baixo acaba fatalmente por moldar os gostos do público, por um lado, e por afastar aqueles que não querem deixar-se embrutecer. Mas não creio que o “jornalismo musical” esteja pior do que o jornalismo em geral. De resto, é como tudo: há bons e maus profissionais em todo o lado.

11-Em jeito de remate, deixo uma questão/reflexão levantada por um colaborador do Som à letra (Manuel Santa Rita) e que foi consumidor da vossa revista na década de 70. Que reflexão poderá fazer uma revista que emerge na Primavera Marcelista, afronta a estagnação musical de então (nacional e internacional), assume frontalmente “os aplausos pela esquerda” e os “apupos pela direita” (crónicas da revista) e nunca se fossilizou?

O MC nunca quis imitar nada. Nascemos com ideias bem definidas, e procurámos ser coerentes com o que defendíamos. E fomos, de algum modo, a prova de que a originalidade, a irreverência e o inconformismo valem a pena. Se o MC tivesse feito o que nessa altura se fazia, teria sido apenas mais uma revista. Mas o que se verifica é que, ainda hoje, tantos anos passados, o MC ainda é uma referência daquela época. Como o foram, noutros moldes, a Memória do Elefante – outro projecto nascido deste colectivo – ou, alguns anos mais tarde, o Musicalíssimo e o Se7e. Todos estes títulos têm em comum o facto de terem sido pioneiros naquilo a que se propuseram fazer. Esse é o legado do MC, que ainda hoje preside à actividade que desenvolvemos – centrada, agora, sobretudo na organização e produção de espectáculos. Procuramos, como sempre, conjugar o profissionalismo, a paixão e o rigor. Porque não sabemos viver de outra maneira.

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