um cao andaluz

FALA-ME DE BUÑUEL
 
II

“Graças a Deus sou sempre ateu!”

 

(À Maria Teresa)

 

Por Santa Rita

… e sem dinheiro e com projectos, Buñuel trabalha em Paris na dobragem de filmes até regressar a Espanha onde, com a cumplicidade do produtor Ricardo Urgoiti, iniciou o projecto “Filmófono” cuja pretensão seria a de relançar o cinema espanhol. Esta  cumplicidade deu origem a quatro filmes dos quais Buñuel sempre recusaria qualquer paternidade ao ponto do seu nome nunca ter aparecido no genérico dos mesmos. Diversos estudiosos da obra “buñueliana”, atribuir-lhe-iam no entanto a verdadeira autoria. De facto, muitos anos mais tarde, Buñuel viria a admitir que tivera um papel relevante na sua realização.

Com a eclosão da Guerra Civil espanhola, Buñuel adere de imediato à causa republicana o que o leva, em missão de “informação e propaganda”, de novo a Paris e seguidamente aos EUA onde, após a vitória de Franco, pede asilo político. Editor Chefe no Departamento de Cinema do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, seria demitido do cargo devido à torpe denúncia do seu ex-correligionário surrealista Salvador Dali que, publicamente, questionava como podia a América dar emprego a um comunista, a um homem que gravemente insultara a religião.

Após dez anos de inactividade cinematográfica, Buñuel inicia no México (naturalizar-se-á entretanto mexicano) o que o crítico J. F. Aranda denominaria como “um ‘tour de force’ imenso e único na história do cinema”. Se bem que Buñuel tenha renegado alguns desses filmes – “fiz filmes maus, mas sempre moralmente dignos; segui sempre o meu princípio surrealista: a fome não é uma desculpa para a arte se prostituir.” – defendeu outros como sendo os seus melhores filmes.

Os anos 50 serão os “buñuelianos” anos de ouro. Com “Los Olvidados” obtém o prémio de melhor realização no Festival de Cannes de 1951 ao mesmo tempo que as cinematecas e os cineclubes ressuscitam “Un chien Andalou” e “L’Age d’Or”.

Nos anos seguintes volta a ser seleccionado para Cannes obtendo em 1953 o Prémio da Crítica Internacional com “Subida al Cielo” e em 1954, o homem que verdadeiramente nem gostava de Cinema, faz parte do Júri do mais famoso e importante Festival de Cinema: precisamente o de Cannes.

No final da década, Buñuel triunfaria de novo em Cannes, obtendo em 1959 a Palma de Ouro com a obra “Nazarin”. Fim da década de 50. Fim do período mexicano. Início da década de 60. Regresso a Espanha. Regresso ao escândalo. “Viridiana”. Nome maldito. Obra maldita. Blasfémia. Sacrilégio. Assim a classifica violentamente o Vaticano. Em Espanha a proibição imediata e imediata a demissão do Director do Instituto do Cinema que a subsidiou. A “L’Age d’Or” revisitada. Entre insultos apaixonados e apaixonadas defesas “Viridiana” obteria a Palma de Ouro em Cannes e mau grado o fantasma da excomunhão a todos os que a fossem ver, goradas as tentativas para que a obra fosse interdita em diversos países,“Viridiana” viria a ser o seu maior sucesso até então e Buñuel seria aclamado, entre apupos e aplausos, um dos maiores cineastas de todos os tempos.

Após “Viridiana” Buñuel realizaria ainda uma série de obras-primas destacando-se o seu maior sucesso de bilheteira “Belle de jour” com Catherine Deneuve e, de novo em Espanha, de novo com Catherine Deneuve, com a novidade também de não terem desta vez existido problemas censórios, a célebre “Tristana” com que Buñuel pretendia colocar um ponto final na sua carreira, chegando mesmo a anunciá-la como a sua última obra. No entanto em boa hora Serge Silberman o convenceu a realizar mais três filmes: “O charme discreto da burguesia” que obteria em 1972 o Óscar para o melhor filme estrangeiro, “O fantasma da liberdade” e “Este obscuro objecto do desejo”. Completamente surdo e quase cego, morreria em 29 de Julho de 1983 na Cidade do México, com 83 anos de idade.

Fiel ao seu conceito de cinema “o cinema é uma arma magnífica e poderosa se se tratar de um espírito livre a utilizá-la…parece que foi inventado para exprimir a vida do subconsciente, cujas raízes penetram tão profundamente na poesia. Só peço ao cinema que seja uma testemunha, um resumo do mundo, aquele que irá dizer tudo o que é importante no real” fiel ao seu conceito filosófico de vida “…continuo a ser contra a moral convencional, os fantasmas tradicionais, tudo o que é uma porcaria na moral e na sociedade. A moral burguesa significa para mim a antimoral porque se baseia em instituições muito injustas: a religião, a pátria e a família e ainda outros pilares da sociedade…o pensamento que me guia hoje aos 75 anos é o mesmo que me guiou aos 27: o artista descreve as relações sociais autênticas com o objectivo de destruir as ideias convencionais dessas relações, pôr em causa o optimismo do mundo burguês e obrigar o público a duvidar da perenidade da ordem estabelecida” fiel ao seu conceito de religião “graças a Deus sou sempre ateu…creio que é preciso procurar Deus no Homem, é uma atitude afinal muito simples…quando jovem, olhava para o céu e dizia-me: é belo e lá em cima não há nada. Hoje olho para o céu e limito-me a dizer que é belo…”

Buñuel legou-nos porventura a única obra cinematográfica tão terna quanto cruel, tão serena quanto relampejante, tão realista quanto surrealista, tão profana quanto sagrada, tão clarividente quanto obscura, tão certa quanto interrogante.

Buñuel legou-nos porventura, a única obra cuja luz cinematográfica não está nem doseada nem acorrentada com toda a segurança. Por isso mesmo ao contrário do que Buñuel afirmava: não podemos dormir tranquilos…

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